O estranho caso do licenciamento de “Gunnm” na Espanha

É possível um mangá estar licenciado por duas empresas diferentes?

Sabe quando suas certezas são abaladas e tudo o que você acreditava ser uma regra imutável na verdade pode ser bem mais flexível e imprevisível do que você pensava? Foi exatamente isso o que aconteceu comigo recentemente ao descobrir o estranho caso do licenciamento de Gunnm na Espanha, em que duas editoras diferentes publicam o mangá ao mesmo tempo. Ou quase isso^^.

Nesta postagem de curiosidades, irei relatar a vocês o que se passou na Espanha com a obra de Yukito Kishiro…

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Gunnm – a mudança de editora no Japão e os desdobramentos (1)

Se você acompanha este blog regularmente e está antenado no mercado brasileiro de mangás deve saber que a editora JBC está relançando o mangá Gunnm, de Yukito Kishiro, agora sob o nome de Battle Angel Alita. A JBC está publicando a obra em uma edição de 4 volumes, seguindo o modelo do relançamento feito pela editora Kodansha no Japão.

Para quem não se lembra, o mangá Gunnm foi originalmente publicado no Japão pela Shueisha, mas devido a divergência do autor com a editora quando ele publicava a continuação Gunnm Last Order, Kishiro levou suas obras para a Kodansha. Comentamos detalhadamente sobre esse caso em uma outra matéria, clique aqui para ler.

Essa mudança de editora no Japão ocasionou situações curiosas ao redor do mundo. Na França, a editora local cancelou Gunnm Last Order e resolveu relançá-lo a partir do primeiro, com novas capas e tudo mais. Nos Estados Unidos, a Viz teve seu contrato encerrado e a continuação foi para a Kodansha US. Mas o caso mais interessante ocorreu na Espanha e bem recentemente. Para entender o que aconteceu nesse país é necessário olhar um pouco mais para o passado…

A Planeta deAgostini (1)

Gunnm começou a ser lançado na Espanha em novembro de 2002 pela editora Planeta DeAgostini, seguindo uma edição de 6 volumes que fora lançada no Japão pela Shueisha anos antes. Essa edição foi “dividida ao meio” rendendo 12 tomos no total e sendo concluído em outubro de 2003.

Em setembro de 2004, a mesma editora começou a publicar Gunnm Last Order, mas a publicação seguiu um formato meio-estranho. Os primeiros 6 volumes originais foram divididos ao meio como o Gunnm original, gerando 12 tomos. Os 13 restantes, porém, foram publicados na Espanha em tankobon normal conforme o que saiu no Japão. Assim, o mangá que teve 19 volumes no oriente, foi concluído na Espanha em 25 tomos.

A publicação de Last Order na Espanha acabou em maio de 2016, dois anos após a conclusão no Japão. Vale comentar ainda que a Planeta também publicou o volume único Gunnm Gaiden, em 2010.

Gunnm – a mudança de editora no Japão e os desdobramentos (2)

Apesar de Last Order ter continuado normalmente nos países em que era publicado (França, Itália, Estados Unidos, Espanha, etc), o mangá original de Gunnm não estava sendo licenciado pela Kodansha. Nenhum dos países do ocidente estava de posse do título. Aqui no Brasil, a JBC chegou a retirar Gunnm de seu site oficial quando a empresa perdeu os direitos de publicação.

As coisas começaram a mudar em 2016. França e Itália anunciaram o relançamento da obra, o que indicava que a série estava livre novamente. A partir daí outros mercados começaram a licenciar Gunnm, como Alemanha, Estados Unidos, Brasil, Argentina e, claro, a Espanha.

Enquanto no Brasil a própria JBC adquiriu a licença novamente de Gunnm (assim como ocorrera com editoras  de outros países como França e Itália), na Espanha a Planeta DeAgostini ficou a ver navios e o mangá Gunnm foi parar nas mãos de outra empresa, a Ivrea.

A Ivrea

A partir do momento em que a Kodansha estava licenciando Gunnm novamente, a Ivrea resolveu fazer uma proposta pelo título ignorando totalmente que menos de um ano antes Last Order havia sido concluído por uma de suas principais concorrentes. A gente não sabe se a Planeta fez uma proposta pelo mangá, mas o fato é que a Ivrea ganhou a obra e começou a publicá-lo em dezembro de 2017.

Era a segunda vez de Gunnm na Espanha, dessa vez por uma editora diferente. Entretanto, a saga dos licenciamentos não parou por aí e a Planeta DeAgostini entrou mais uma vez na parada.

A Planeta deAgostini (2)

O mangá Gunnm não termina com Last Order. O autor fez uma nova continuação chamada agora de Gunnm Mars Chronicle e que está prometida para ser a última série da franquia. Muito recente no Japão, o mangá possui 5 volumes até o momento e não tem previsão de fim.

Ele já está sendo licenciado em alguns países, como Itália, França e Espanha^^. A Planeta não conseguiu o Gunnm original, mas havia licenciado antes o Gunnm Mars Chronicle e o começou a publicar na Espanha agora em março. Sim, enquanto uma empresa lança a “primeira fase”, outra lança a “última”.

O que causa surpresa?

O que nos surpreende é que pensávamos que se uma série têm continuações e todas elas são lançadas pela mesma empresa no Japão, o natural seria que apenas uma editora ficasse responsável por todas elas em um país. Assim, se a Planeta tinha concluído Last Order e havia licenciado Mars Chronicles, o normal seria a Kodansha “entregar” o relançamento de Gunnm para a Planeta e não para a Ivrea.

Agora, na Espanha “um mesmo mangá” está com duas editoras diferentes, surreal. Aparentemente o tempo de vigência do contrato de Last Order com a Planeta também já expirou e segundo a Ivrea o possível relançamento da obra pode ocorrer por qualquer uma das duas empresas e quem vai decidir com quem ficará a continuação obviamente será a Kodansha.

Licenciamento x Licenciamento

É preciso ficar claro que Gunnm e Gunnm Mars Chronicle apesar de fazerem parte de uma trilogia são mangás diferentes e, portanto, seus licenciamentos também são diferentes. Então, é totalmente possível que uma obra fique com uma empresa, e outra com outra.

Entretanto, é muito pouco usual que algo assim aconteça. A gente não conhece nenhum caso minimamente similar a esse. Em geral, se uma empresa lança uma obra em um país, a continuação virá pela mesma empresa. Não é o que ocorrerá na Espanha. A Ivrea lançará o Gunnm, talvez lance o Last Order, mas não poderá publicar o Mars Chronicle, visto que ele se encontra sob posse da Planeta.

Casos diferentes

Talvez, ao ler este caso, você se lembre que a Panini vai começar a publicar o mangá de Re: Zero, enquanto a NewPOP publica a light novel, mas é um caso muito diferente, visto que um se trata da adaptação do outro. Isso não é inédito, ocorre em outros países e com outras obras.

Muita gente também deve lembrar que no passado a Conrad publicava os mangás de Cavaleiros do Zodíaco e, do nada, a JBC anunciou Lost Canvas. Só que esse caso é bem diferente também disso que ocorreu na Espanha, pois LC não é continuação direta. Além disso, no Japão CdZ fora lançado pela Shueisha e Lost Canvas pela Akita Shoten, então eram de empresas diferentes.

O mesmo vale para Fate/Zero (NewPOP) e Fate/Stay Night (Panini), obras de empresas japonesas diferentes, além de serem mídias diferentes.

Gunnm e suas continuações estão todas de posse da Kodansha, ou seja uma mesma editora japonesa que licenciou obras de uma trilogia para duas editoras diferentes na Espanha. Talvez algo assim já tenha ocorrido em outros mercados, mas a gente realmente não sabe de nenhum. Para nós é algo inédito…

13 Comments

  • Isso me lembrou de um caso mais ou menos parecido que ocorreu nos EUA.

    A editora J-Novel Club de lá, que é uma editora que publica apenas novels em formato digital, licenciou Clockwork Planet. Poucos meses depois a editora YenPress começou a lançar a mesma novel, só que dessa vez em formato impresso. Eu imagino que sejam licenças diferentes também, mas achei curioso duas editoras diferentes estarem publicando a mesma novel em formatos diferentes.

    • Acho que é tipo a crunchyroll publicando mangás – eles publicam digital, mas o físico qualquer editora pode pegar

    • São licenças diferentes mesmo, mas no caso houve uma parceria da J-Novel Club com a Seven SEAS para a publicação de novels em formato físico.

      Clockwork acho que também foi para a Seven Seas e não para a Yen Press.

  • legner

    Eu também nunca havia visto esse tipo de situação, bem bizarro mesmo.
    Outra coisa, não sabia sobre essa continuação que está tendo no japão de Alita, valeu pela informação, e espero um dia ter o lançamento aqui no Brasil.

    • Poutz?… Sério que você não conhecia o GUNNM Last Order??? O.o
      Suponho então que você não conhecia GUNNM, né? Porque é muito raro alguém conhecer esta obra e não saber do Last Order…

      • Victor Lucas Brito de Andrade

        Acho que ele estava falando de Mars Chronicle. é muita continuação para acompanhar…

      • Sennafogo, o amigo acima falou “não sabia sobre essa continuação que está tendo no japão de Alita”

        A continuação que está tendo no Japão é Mars Chronicle e não Last Order. Last Order já acabou tem tempo. Então fica claro que ele estava falando de Mars Chronicle e muita gente não conhece mesmo MC.

        • legner

          Sim, de fato me referia a Mars Chronicle, o Last Order comecei a ler faz um bom tempo, mas não terminei. Seria interessante um lançamento nesse formato Big de Last Order pela JBC, eu gostei muito desse formato. Tomara que eles aproveite o embalo, vai que seja o próximo anuncio que eles vão fazer?

          • No Japão, a Kodansha relançou a obra em uma versão de 12 volumes. Não é um big, mas é quase um. Se lançarem por aqui, deve ser essa versão.

            Last Order só não aparece se Alita for um enorme fracasso de vendas e eu duvido que Alita seja um fracasso.

  • Miguel

    Pena que a ultima versão lançada aqui, houve a troca do nome da nome da protagonista e msm do próprio título, somente para divulgar um filme…
    Deixei passar; pois me incomoda ficar lendo Alita ou Battle Angel Alita(arf…) toda hora só por que alguns querem ganhar mais $$ !!

    • “só por que alguns querem ganhar mais $$ !!”

      Vamos tentar de novo: Não tem absolutamente nada de errado qualquer editora querer ganhar mais dinheiro. Editora é empresa, tem que lucrar. Tem que fazer de tudo para lucrar mais e mais e se esse “fazer de tudo” não implica em um custo extra ao consumidor melhor ainda. Se a editora achou que a mudança de nomes vai dar mais dinheiro para ela, eu tenho é que achar bom, principalmente se eu sou fã de Gunnm.

      Por quê? Por causa das continuações. Quanto mais a editora ganhar dinheiro, mais aumentam as chances de toda a franquia ser lançada no país e ter finalmente ela de forma oficial em língua portuguesa.

      A mudança de nome incomoda no início (Já passei por isso com o sapo Caco virando Kermit e com os nomes de Sailor Moon e Guerreiras Mágicas), mas no fim é só um nome. Deixar de apreciar a obra que gosta por causa de um nome faz pensar que a obra é muito ruim e que só o nome é importante. O que, obviamente, não faz o menor sentido.

      Então, para mim, podem chamar a Gally de Alita, de Anita, de Ivete Sangalo ou o que for se isso gerar mais vendas. O importante é que a obra e suas continuações sejam lançadas no Brasil.

  • Gustavo

    Só lembrando que da primeira vez que Gunnm foi publicado por aqui, foi de forma ilegal pela Opera Graphica, com o nome da versão americana, Battle Angel Alita. Parece que o mangá atrai esse tipo de problema 😊

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