Resenha: Guardiões do Louvre

Mais uma obra do mestre Taniguchi no Brasil…

Embora a Torre Eiffel seja o marco mais conhecido de Paris, há quem diga que visitar a cidade e não ir ao Museu do Louvre é o mesmo que não ir até ela. Um dos ícones da França, o museu é conhecido por ter diversas obras primas da humanidade, entre elas o famoso quadro a Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci.

Há alguns anos, a editora francesa Futuropolis fez uma parceria com o Louvre para que de tempos em tempos um artista fizesse uma obra revisitando o museu. A primeira obra foi lançada em 2005 pelo artista Nicolas De Crécy e teve como título Període Glaciare. De lá para cá outras obras surgiram (você pode conferir elas clicando aqui) e alguns mangakás também foram convidados a fazer uma homenagem ao Museu, dentre eles Jiro Taniguchi. Assim nasceu Guardiões do Louvre.

A obra foi publicada na França em duas oportunidades. Na primeira edição, publicada em 2014, o mangá foi lançado totalmente colorido e em um formato grandão (23 x 32,5 cm); na segunda, publicada em 2017, ele foi lançado em preto e branco e em um formato um pouco menor 19,5 x 26,5. Por sua vez, no Japão, os capítulos foram lançados na revista seinen Big Comic Original, da Shogakukan, tendo o volume físico lançado apenas em fevereiro de 2015.

No Brasil, a obra foi licenciada pela editora Pipoca & Nanquim, pertencente aos donos de um canal do Youtube de mesmo nome. A versão nacional se baseia na primeira versão francesa, o que fez a obra tornar-se o mangá com maior dimensão publicado em nosso país.

Hoje, viemos falar um pouco sobre esse título e dizer se gostamos ou não e se vale a pena ou não adquirir o título. Vejamos em detalhes:

  • Sinopse

O aclamado mangaká Jiro Taniguchi o convida a conhecer o Museu do Louvre de uma maneira inesquecível. Depois de uma excursão pela Europa, um artista japonês faz uma parada em Paris sozinho, com a intenção de visitar os museus da cidade. Mas, acamado em seu hotel devido a febre, ele enfrenta o sofrimento da solidão absoluta em uma terra estrangeira, privado de qualquer recurso ou apoio familiar. Quando a febre baixa um pouco, ele inicia seus passeios e logo se perde nos monumentais salões do Louvre. Lá, descobre muitas facetas do mundo das artes, em uma jornada que oscila entre alucinações febris e realidade. Ele se vê conversando com pintores famosos de diversos períodos da história, sempre guiado pelos… Guardiões do Louvre.

  • História e desenvolvimento

Jiro Taniguchi é um autor renomado e sempre ouvi falar muito bem dele. Quando a editora Levoir, de Portugal, publicou O diário de meu pai e Terra de sonhos, pensei até em importar os títulos para ver como eram as obras do autor. Não levei para a frente a ideia, pois o custo seria alto demais para minhas posses. Quando a Devir publicou O homem que passeia por lá, a ideia de importar voltou à minha mente e entrei em contato com a editora, mas fui surpreendido na época com a informação de que a obra seria lançada no Brasil também^^.

Li O homem que passeia e gostei muito, realmente achei uma obra sensacional (veja a resenha aqui) e comecei a querer outras obras do autor. Posteriormente li o único volume de Seton lançado no Brasil (a obra foi cancelada por baixas vendas) e também gostei bastante, de modo que as expectativas para Guardiões do Louvre estavam bem altas.

O primeiro capítulo correspondeu muito bem as expectativas, com o título nos apresentando o personagem principal e mostrando a riqueza das imagens de Paris e do Louvre, as ruas, as casas, a multidão no museu, os quadros, etc. O aspecto de fantasia da obra (fazendo o personagem ter contato com uma manifestação de uma escultura, por exemplo) também foi muito interessante e serviu para enfatizar a tônica do mangá, a apresentação do museu e das obras de arte ali presentes.

Os demais capítulos oscilam um pouco com uma ou outra passagem menos interessante, mas tal qual O homem que passeia, Guardiões do Louvre também se mostra um título que nos faz apreciar o ambiente, acompanhando quadrinho a quadrinho com minúcia para vermos os mais pequeninos detalhes. O fato de o mangá ter sido publicado em um formato grande beneficia esse tipo de leitura, tornando a observação mais aguda do que seria se a obra viesse em um formato menor.

Além disso tudo, o mangá nos mostra a beleza de diversas pinturas e do sentimento dos artistas e das pessoas que a apreciam, com vários figuras importantes fazendo aparições no mangá, como o pintor Vincent Van Gogh e o escritor Antoine de Saint-Exupéry, autor de O pequeno príncipe.

O mangá tem passagens primorosas e impactantes, sendo o quarto capítulo o melhor deles, pois apresenta a real importância das obras de arte e necessidade de se fazer o impossível para preservá-las, mesmo em épocas e ambientes pouco propícios para isso.

É nesse capítulo que o amor pela arte se mostra de forma mais eficaz, não sendo apenas uma louvação ao Louvre e sim a todos os artistas, de todas as épocas, e de todas as pessoas que trabalham ou tem apreço pelas obras.

A mensagem dada é bem clara, a arte – por mais que se queira eterna – é totalmente efêmera se não tiver os cuidados de seus admiradores. Em um período de guerra, todas as obras hoje conhecidas podem desaparecer em um piscar de olhos se não houver gente disposta a preservá-las. O capítulo é uma lembrança de um período triste da história de Paris e do Louvre, versando sobre uma guerra do passado que esvaziou os corredores do Palácio e as pessoas que fizeram o impossível para preservar as obras, arriscando suas próprias vidas para isso.

Essa é a síntese de Guardiões do Louvre, uma louvação da arte, dos artistas e das pessoas, tanto as encarregadas de cuidar das obras, quanto das que querem apenas a apreciar. Uma louvação do museu e das pessoas que o frequentam.

Guardiões do Louvre não tem a qualidade e a intensidade de O homem que passeia, mas ainda assim é uma leitura prazerosa, principalmente para quem gosta do França, de Paris, do Louvre, de obras de arte e dos artistas.

  • Os problemas do mangá

O plot de Guardiões do Louvre é bem simples, um homem resolve passar cinco dias em Paris, adoece, mas após uma noite se sente bem e vai visitar o museu do Louvre. A partir daí, em cada capítulo ele se verá indo para épocas do passado, encontrando artistas e conhecendo algumas histórias sobre eles ou sobre o museu. Embora cada capítulo dê prosseguimento à história, claramente é um mangá episódico, sem necessidade de que as visitas e as pessoas que ele encontra se interliguem.

Só que a obra possui um problema exatamente nesse embate entre ser contínuo e ser episódico. Em uma das tentativas de explicação dos fatos “sobrenaturais” é dito que o protagonista estaria em um local “entre o sonho e a realidade, num local em que as almas se encontram” e que logo ele encontraria alguém que ele gostaria de encontrar. Nesse ponto, mais de metade da obra já havia ido e não tinha qualquer menção que desse a entender que ele queria encontrar alguém. Mais que isso, até aí, a gente só via o protagonista ir de local em local, encontrar os artistas e a nada mais. Só sabíamos que ele voltava de Barcelona e foi a Paris antes de retornar ao Japão. Nada sobre ele era realmente importante. O que importava era o museu, os artistas e as obras de arte. Essa mudança de foco terminou por ser ruim e concluiu pessimamente no capítulo 5 e último.

No referido capítulo final, a louvação deixa de fazer parte da trama por um tempo e o protagonista acaba ganhando inteira atenção com um certo aspecto da sua vida, até então ignorado, sendo colocado em voga e com ele encontrando uma pessoa. O encontro realmente não é algo que faça sentido algum na trama, pois foge totalmente ao que vinha sendo apresentado até então. Por mais que seja episódico, ainda há um aspecto de continuidade e nesse ponto de colocar o protagonista em destaque soou bem desconexo.

Se, em vez do final do capítulo 3, lá no começo da obra, quando ele se revirava na cama, algo tivesse sido mencionado, a conclusão talvez tivesse sido natural e perfeita, mas do jeito que foi feito, esse final – esse encontro – ficou jogado e sem sentido. Não há razão para um aspecto pessoal da vida do protagonista ser levado em conta em uma obra que não é sobre ele. Esse é um dos maiores deméritos da obra.

  • A edição nacional

A edição brasileira da obra é baseada na versão francesa e possui características e dimensões peculiares. O volume possui 136 páginas, todas elas coloridas, e veio no formato 23,6 x 31,6 cm, com miolo em papel couchê 150g e capa dura. Isso tudo ao preço de R$ 59,90.

Guardiões do Louvre é o mangá com maior dimensão publicado no Brasil e abaixo você vê uma comparação do tamanho dele com o de A voz do silêncio, o mangá nacional com menores dimensões.

O maior mangá x O menor mangá

A edição física está impecável e não há nada a reclamar do acabamento. Devido às dimensões do produto, à capa dura e o tipo de papel, o valor cobrado soa muito barato, muito barato mesmo. É até estranho terem conseguido fazer um produto com um acabamento tão primoroso e por um preço tão em conta. Sem dúvida alguma, para quem deseja uma edição de luxo, Guardiões do Louvre é de longe o mangá com o melhor custo benefício do mercado. Nenhum outro mangá nem chegou perto da qualidade desse mangá e por um preço tão baixo.

O único demérito da edição é justamente sua característica mais marcante, ser o mangá com maior dimensão publicado no Brasil. Se de um lado, ele ser grande nos ajuda a apreciar melhor o desenho e as minúcias do mangá, seu tamanho torna-se pouco prático para uma leitura casual, devendo ter toda uma preparação anterior. Para nós, o melhor jeito (e único prático) de ler o mangá é deixando ele aberto em cima da cama e lendo-o deitado, de bruços. Uma edição diferenciada como essa requer – adaptando um termo da história cultural – uma prática de leitura diferente.

Em relação ao texto, ele encontra-se muito bem adaptado, não existindo nenhuma passagem que parecesse travada ou mal formulada. De igual modo, não existe nenhum termo desnecessário, tornando uma leitura fácil mesmo para quem não é iniciado no mundo dos quadrinhos japoneses. Também não encontrei erros de revisão em nenhuma de minhas leituras.

  • Veredicto

Guardiões do Louvre está longe de ter a qualidade que O homem que passeia tem, possuindo um roteiro com alguns entraves e pontos meio desconexos. Ainda assim, a obra tem passagens primorosas que mostram todo o talento de Jiro Taniguchi em colocar emoções em coisas simples, e que fazem a leitura valer a pena.

Assim como outras obras do autor, o mangá não é para todo mundo e você precisa estar preparado para uma obra parada em que praticamente nada acontece, sendo que é nesse nada que está a maravilha do mangá. Guardiões do Louvre é especialmente indicado para quem gosta de obras de arte e quer conhecer mais sobre pinturas, pintores e, claro, sobre o Museu do Louvre.

  • Ficha Técnica

Título: Guardiões do Louvre
Autor: Jiro Taniguchi
Editora: Pipoca & Nanquim
Dimensões: 23,6 x 31,6 cm
Miolo: Papel Couchê 150g
Acabamento: Capa Dura
Classificação indicativa: Livre
Número de volumes: 1 no total
Preço: R$ 59,90
Onde comprar: Amazon

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3 Comments

  • Gostei muito da leitura dessa obra, não foi tão fantástica como O Homem que Passeia mas valeu a pena ter comprado na pré-venda. A edição tá maravilhosa, as cores empregadas pelo Jiro Taniguchi são sensacionais e, mesmo sendo uma edição gigante e meio difícil de ler, o nível de detalhe proporcionado pela dimensão dela é bem interessante (até porque o autor concebeu essa obra nessas dimensões, não critico a decisão de lançar um mangá tão grande pois tem essa justificativa).

  • Não sei qual o formato original da obra, mas achei o formato (tamanho) e preços empregado pela Pipoca & Nanquim bem complicados de impactarem qualquer tipo de leitor ou colecionador de mangás, ou mesmo quem gosta do Taniguchi (meu caso). Para mim, ainda há o adendo de eu não gostar da editora… infelizmente, esta obra eu vou passar…

    • Como dissemos o mangá foi concebido na França, por convite do Museu do Louvre e da editora francesa Futuropolis. Como a postagem também mostra, o título foi publicado na França em 2014 e no Japão apenas em 2015, logo a versão original é a francesa.

      A versão brasileira é idêntica a essa versão de 2014 (todo colorido, capa dura, etc). O tamanho divulgado da edição brasileira é milímetros MENOR que a da edição francesa, mas como editoras às vezes divulgam apenas o tamanho do miolo (desconsiderando capa dura) talvez as duas versões sejam exatamente do mesmo tamanho.

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