Resenha: O Homem Sem Talento

No ramo da Literatura existe uma tendência atual chamada autoficção. De forma muito resumida, essa tendência (que não chega a ser tão nova assim) tem como característica marcante a presença do autor na obra. Em linhas gerais, tratam-se de obras de ficção (ficção de verdade) em que o autor se coloca no título, como um personagem, ou com características suas, em uma mistura de ficção e biografia.

Existe uma grande fortuna crítica a respeito, com diversas especificidades e que tornam a autoficção bem mais complexa do que explicamos acima, mas não cabe se aprofundar no assunto aqui. O importante é você saber que na maioria das obras de ficção não é possível você encontrar aspectos da vida pessoal autor, entretanto existem sim algumas obras que são abertamente e propositalmente feitas para se tenha algo do criador da obra na ficção.

O Homem Sem Talento, mangá de Yoshiharu Tsuge, não é outra coisa senão uma obra de autoficção, uma obra ficcional em que parte da biografia do autor está ali presente, como um mote para se contar uma história. No Japão, esse tipo de mangá é chamado de Watakushi (“quadrinhos do eu”), um gênero quase totalmente desconhecido no Brasil. A obra, então, como é de esperar, acompanha a vida de um autor de mangás, apresentando a visão de mundo dele por meio de uma historinha.

Essa obra traz como bagagem extra-ficção a pecha de ser considerado um dos melhores mangás de todos os tempos segundo o crítico inglês Paul Gravett, o que faz com muitas pessoas tenham grandes expectativas acerca desse título. Publicado agora em novembro pela editora Veneta no Brasil, lemos o mangá e viemos falar um pouquinho sobre ele para vocês.

  • Sinopse Oficial

Originalmente publicado em 1985 no Japão, O Homem Sem Talento é um trabalho icônico do gênero mangá watakushi (“quadrinhos do eu”), como são conhecidos os quadrinhos autobiográficos japoneses, cujo pioneiro é justamente o próprio Yoshiharu Tsuge. O protagonista, alter-ego do desenhista, é um autor de mangá que se recusa a comprometer seu trabalho e ceder às pressões da indústria editorial. Diante das vicissitudes da existência, ele parece determinado a tornar sua vida uma estranha ode ao fracasso, vendendo pedras retiradas de um rio perto de sua casa. Pedras que ninguém parece ter interesse em comprar. De maneira lenta, mas persistente, o “homem sem talento” se coloca à parte de uma sociedade que não lhe interessa mais, enquanto sua esposa insiste em vão para que ele encontre uma maneira de dar uma vida digna à sua família. Ao longo das páginas, Tsuge transforma essa história de fracasso em um poema assustador e desesperado, mas com um toque de humor e uma irônica redenção. 

  • História e  Desenvolvimento

Na sociedade atual, seja a brasileira, seja a japonesa, a maior preocupação das pessoas termina por ser, invariavelmente, o dinheiro. Ele rege o mundo, ele faz com que as coisas aconteçam e você progrida. O sucesso pessoal, muitas vezes, é medido apenas e tão somente pelo quanto de dinheiro você consegue ganhar. Mesmo que aquelas cédulas de papel não tenham real importância para essa ou aquela pessoa, a falta delas traz consequências tanto no âmbito pessoal (a privação de coisas), quanto social (o afastamento das pessoas próximas a você), então elas [as cédulas] terminam por ser necessárias independente do seu estilo e modo de vida. O mangá O Homem sem Talento fala exatamente disso.

O protagonista da história não é outra coisa senão uma pessoa comum e normal (um autor de mangás, mas um homem comum e normal) que está sempre em busca de ganhar mais e mais dinheiro, porém ele não consegue por uma série de “””circunstâncias”””. As primeiras páginas da história já mostram o personagem em uma situação insólita, vendendo pedras à beira do rio (que ele colhera justamente desse rio) e não conseguindo ter nenhum cliente. Logo em seguida, o vemos pensar em diversas outras maneiras de ganhar alguns trocados, com ele sonhando, somando números e chegando a uma quantia bem grande se suas intenções se concretizassem. Porém, ele ainda não passava de um pretenso vendedor de pedras sem conseguir comercializar seus produtos.

Em meio a um clima um tanto quanto hostil dentro de casa (sua esposa deseja que ele passe a ter um trabalho normal, que volte a desenhar mangás, etc), o protagonista segue com suas convicções inabaláveis e até mesmo pueris, as “””circunstâncias” de que falamos anteriormente. Conquanto quisesse ganhar mais e mais dinheiro, ele vive preso à questão da forma e do bom gosto, em outras palavras, ele vive encarcerado pela arte em um mundo que não precisa mais dela. Ele deixou de receber pedidos para novos mangás porque seu estilo era artístico demais para as pretensões atuais do mercado (não há mais necessidade de “arte” para se fazer quadrinhos), mas quando recebe proposta, ele mesmo as recusa. Ainda assim, ao mesmo tempo vende pedras que ele mesmo escolheu durante anos, quase de forma artística.

Existe toda uma relação nessa obra entre a arte de fazer mangás e a de vender pedras, ou, melhor dizendo, a venda de pedras é uma metáfora para o comércio de um certo tipo de mangá. O verdadeiro artista (e aqui estamos falando daqueles que foram engrandecidos pela crítica, pela universidade, etc) não tem espaço no mercado de quadrinhos do jeito que ele é, estando sempre à parte ou sendo dispensável e invisível. Do mesmo modo não há como você vender pedras, por mais bonitas que elas sejam, bem na beira do rio em que eles foram pegos, por que as pessoas não veem valor nelas. Ainda nessa alegoria, a obra deixa claro que no passado, as pessoas davam mais valor às pedras (à arte), mas com o passar do tempo, foram minguando o número de fãs que valorizavam isso e as pedras (a arte) passaram a ser algo praticamente inexistes. Não adianta produzir arte (vender pedras) em um mundo cheio de outras coisas, ainda mais quando as suas pedras (a sua arte) estão à margem do que é comum e normal, porque as pessoas não entenderão que existe algo especial naquilo.

Quando falamos de arte, a questão talvez não se resuma apenas a mangás. A história parece mostrar que nos dias de hoje já não há mais espaço para a verdadeira expressão artística e o que importa realmente é conseguir se manter, ganhar dinheiro, não importa o jeito que for e é por isso que o protagonista tenta outras “profissões”.

A obra tem diversas camadas de interpretação, sendo que a mais marcante delas é a incapacidade das pessoas de se ajustarem ao mundo como ele é nos dias de hoje. Se o protagonista deseja ganhar bastante dinheiro com negócios mirabolantes (A venda de pedras, conserto de máquinas fotográficas, etc), ao mesmo tempo ele é alguém que é apresentado como inútil, por rigorosamente não fazer nada, ou não fazer nada que traga sustento para as pessoas, mostrando um desajuste perante ao que a sociedade espera dele.

“Para as mulheres” só não, para a sociedade japonesa como um todo.

Não é só o protagonista que é assim. Há toda uma gama de personagens que aparecem e que se mostram como alter egos desse protagonista. O livreiro que vive deitado, o comerciante de pássaros e todos os participantes do mercado de pulgas também são típicas pessoas à margem da sociedade, longe do “trabalho de verdade”. Não obstante a isso, a última história, a do poeta, conquanto apresente uma realidade completamente diversa, dialoga também com a temática da história, mostrando um sujeito que, pouco a pouco, se viu abandonado ou antes relegado devido a não estar de acordo com a sociedade. É um conto que mostra bem que as aparências importam bastante e se você não se coloca com uma imagem que as pessoas esperam, pode ser que você não seja mais aceito dentro da sociedade produtiva, sendo colocado de escanteio, como um indigente.

Devido às diversas camadas que a obra permite, cada detalhe, cada capítulo poderia ser discutido aos montes, rendendo páginas e mais páginas de algum artigo científico para área de humanas, seja artes, filosofia ou mesmo literatura, entre outras. O ponto central e que não deve ser esquecido é que a obra tem toques biográficos, com citações, inclusive, a editores de Yoshiharu Tsuge, de modo que as discussões e as passagens refletem de forma mais incisiva as ideias do autor sobre a expressão artística e sobre a sociedade, bem como o modo como ele vê uma influenciando (ou não influenciando) a outra.

Em uma obra de ficção comum e normal você facilmente vê a visão de mundo do autor e o posicionamento dele, mas em uma obra de cunho biográfico, autoficcional, com a presença de um personagem que representa o próprio o autor, as ideias apresentadas deixam as mensagens mais explícitas, mostrando de forma mais clara as ideias e os pensamentos do criador, pois até mesmo aspectos da vida pessoal dele podem estar ali misturados em meio aos aspectos ficcionais. Ao que parece, Tsuge realmente se escondeu do mundo durante uma época de sua carreira.

O Homem sem Talento realmente é um mangá único e a gente entende perfeitamente o porquê de um crítico ter eleito essa obra como uma das melhoras obras asiáticas de todos os tempos (embora ela não seja tão boa assim).  Entretanto, é preciso que a gente diga: se você ainda não leu a obra, é muito provável que você não goste do mangá.

Existem vários motivos para isso, mas alguns saltam aos olhos. O primeiro é que ela não tem uma trama propriamente dita. Isso não chega a ser nada demais, visto que existem obras sem trama (Yuru Camp, O Homem que Passeia) que se desenvolvem bem e são consistentes no modo como “apresentam nada”. O problema é que O Homem sem Talento termina por ser um compêndio de historietas que, embora se relacionem e formem uma sequência lógica, pode parecer a muitos dos leitores algo desconecto e que sequer apresente uma conclusão para a história ali narrada.

Em um certo momento da obra, por exemplo, você estará virando as páginas, até gostando da narrativa e quando menos esperar, você virará uma outra página e não terá mais nada para ler. Cadê o resto? Como termina a história? Muitos de vocês certamente irão se perguntar isso, achar que houve algum erro em seu exemplar, etc. Quando finalmente perceberem que o mangá é assim mesmo, vão achar ruim, pois terá faltado a conclusão da obra, o prosseguimento da narrativa, etc.

Existe uma razão para ser assim (a situação de um sujeito real perante o mundo não muda como em uma obra de ficção e o personagem principal não tem razões para ver a sociedade de outra forma já que ela continua não dando valor à arte que ele produz), mas não é algo que fique tão claro para todos os leitores e você ficará com a sensação de que não terá valido a pena. O Homem sem Talento, no entanto, é uma boa obra (não tanto quanto podem te fazer crer por aí, mas boa), porém o estilo não é para todo mundo e provavelmente não agradará todos….

  • A edição nacional

A edição nacional foi publicada com algum papel offwhite (provavelmente o Pólen) no formato 17 x 23 cm, em capa dura, ao preço de R$ 64,90. Ao todo são 240 páginas, mais ou menos a quantidade de Cavaleiros do Zodíaco – Kanzenban e Dragon Ball Edição Definitiva e apesar de não ter páginas coloridas, está bem na média do mercado para uma publicação com esse tipo de acabamento.

A edição física é muito boa como se espera de um produto em capa dura, podendo folheá-lo e lê-lo sem quaisquer problemas. O papel também é bom, daqueles ótimos para a leitura e que não cansam tanto a vista dos que leem muito.

Em termos de texto, não encontrei erros de revisão e a adaptação me pareceu boa. O único ponto que achei estranho, foi a editora ter mantido certas passagens de um poema no original, colocando apenas uma legenda na parte de baixo. No mais, gostei bastante da edição da Veneta.

  • Conclusão

O Homem sem Talento é uma boa obra (não tanto quanto podem te fazer crer por aí, mas boa), porém o estilo não é para todo mundo e provavelmente não agradará todos. Mas se você deseja algo novo, diferente, que te faça pensar sobre questões estéticas e o lugar da arte no mundo atual, ao mesmo tempo em que você se delicia com um bom entretenimento, esse é um mangá para você. A história e as discussões, aliado à qualidade física do produto, dificilmente fará com que você se arrependa de gastar R$ 64,90 na obra.

Como dito antes, O Homem sem Talento possui diversas camadas de interpretação e isso é particularmente interessante, pois você pode ver visões várias sobre a mesma obra. Esta resenha, por exemplo, foi feita antes de ler o prefácio da edição brasileira, de Marcello Quintanilha. Ao lê-lo eu tive uma visão completamente diversa da minha, com muitas coisas que eu nem notei em minha primeira (e segunda) leitura. E isso é muito legal, pois enriquece a experiência.

Então, para quem comprou a obra eu recomendo que você faça três leituras. Uma para conhecer a obra, outra para reconhecer, e uma terceira após ler o prefácio (ou mesmo a nossa resenha) buscando ver diversas coisas que são suscitadas pela leitura e que provavelmente você deixou passar em algum momento.

  • Ficha Técnica

Título Original: 無能の人
Título NacionalO Homem sem Talento
Autor: Yoshiharu Tsuge
Tradutor: Esther Sumi
Editora: Veneta
Dimensões: 16 x 23 cm
Miolo: Papel Pólen
Acabamento: Capa dura
Classificação indicativa: Sem Classificação
Número de volumes no Japão: 1
Número de volumes No Brasil: 1
Preço: R$ 64,90
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